quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Os cinco maiores problemas ambientais do mundo e as soluções

Nils Zimmermann

Deutsche Welle

Poluição do ar, desmatamento, extinção de espécies, degradação do solo e superpopulação representam grandes ameaças, que devem ser resolvidas para que o planeta continue sendo um lar para todas as espécies.


 

1. Poluição do ar e mudanças climáticas

O problema: a atmosfera e os oceanos estão obrecarregados de carbono. O CO2 atmosférico absorve e reemite radiação infravermelha, o que faz com que o ar, os solos e as águas superficiais dos oceanos fiquem mais quentes – em princípio, isso é bom: o planeta estaria congelado se isso não acontecesse.

Mas há muito carbono no ar. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento para a agricultura e as atividades industriais aumentaram as concentrações atmosféricas de CO2 de 280 partes por milhão (ppm), há 200 anos, para cerca de 400 ppm. Isso é um aumento sem precedentes, tanto em escala quanto em velocidade. O resultado: perturbações climáticas.

O excesso de carbono é apenas uma das formas de poluição do ar causadas pela queima de carvão, petróleo, gás e lenha. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou recentemente que uma em cada nove mortes em 2012 está relacionada com doenças causadas por agentes cancerígenos e outros venenos presentes no ar.

 Foto: imago/blickwinkel

Vida nos oceanos sofre com a pesca predatória, a poluição 

e o aquecimento das águas por causa das alterações climáticas

Soluções: substituir os combustíveis fósseis por energia renovável; reflorestamento; reduzir as emissões originadas pela agricultura; alterar processos industriais.

A boa notícia é que a energia limpa é abundante – ela só precisa ser estimulada. Muitos afirmam que um futuro com 100% de energia renovável é possível com a tecnologia já existente.

Mas há uma má notícia: embora a infraestrutura de energia renovável – painéis solares, turbinas eólicas e sistemas de armazenamento e distribuição de energia – esteja se tornando cada vez mais comum, barata e mais eficiente, especialistas dizem que essas tecnologias não estão sendo utilizadas no ritmo necessário para evitar uma ruptura climática catastrófica. Dificuldades políticas e financeiras ainda precisam ser superadas.

2. Desmatamento

O problema: florestas ricas em espécies estão sendo destruídas, especialmente nos trópicos, para muitas vezes abrir espaço para a criação de gado, para plantações de soja ou de óleo de palma, ou para outras monoculturas agrícolas.

Cerca de 30% da área terrestre do planeta é coberta por florestas – isso é cerca de metade do que existia antes de o início da agricultura, 11 mil anos atrás. Cerca de 7,3 milhões de hectares de floresta são destruídos a cada ano, principalmente nos trópicos. Florestas tropicais costumavam cobrir cerca de 15% da área terrestre do planeta. Atualmente elas cobrem de 6% a 7%. Grande parte do que sobrou foi degradado pela derrubada de árvores ou queimadas.

As florestas naturais não atuam apenas como reservas da biodiversidade, eles também são reservatórios que mantêm o carbono fora da atmosfera e dos oceanos.

 Foto: picture-alliance/dpa

A destruição de florestas tem impacto sobre a biodiversidade e o clima

Soluções: conservar o que resta das florestas naturais e recuperar as áreas degradadas com o replantio de espécies arbóreas nativas. Isso exige um governo forte – só que muitos países tropicais ainda estão em desenvolvimento, têm populações crescentes, carecem de um Estado de Direito e sofrem com nepotismo generalizado e corrupção quando se trata do uso da terra.

3. Extinção de espécies

O problema: em terra, animais selvagens estão sendo caçados até a extinção para a obtenção de carne, marfim ou para a produção de produtos "medicinais". No mar, grandes barcos de pesca industrial, equipados com redes de arrastão ou de cerco, estão dizimando populações inteiras de peixes. A perda e a destruição de habitat também é um fator importante para a onda de extinção – algo sem precedentes se for considerado que ela está sendo causada por uma única espécie: a humana. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) de espécies ameaçadas continua a crescer.

Espécies não apenas têm o direito de existir, elas também fornecem produtos e "serviços" essenciais para a sobrevivência humana. Um exemplo são as abelhas e seu trabalho de polinização, necessário para o cultivo de alimentos.

 Foto: picture-alliance/dpa/S. Fayad

Rinocerontes são mortos por causa do chifre, que algumas 

pessoas acreditam erroneamente ter propriedades medicinais

Soluções: esforços conjuntos devem ser feitos para evitar a diminuição da biodiversidade. Proteger e recuperar habitats é apenas um lado da questão – combater a caça e a pesca ilegais e o comércio de vidas selvagens é outro. Isso deve ser feito em parceria com populações locais, para que a conservação da vida selvagem seja do seu interesse, tanto social como econômico.

4. Degradação do solo

Problema: a exploração excessiva das pastagens, as monoculturas, a erosão, a compactação do solo, a exposição excessiva a poluentes, a conversão de terras – a lista de maneiras como os solos estão sendo danificados é longa. Cerca de 12 milhões de hectares de terras agrícolas são degradados seriamente todos os anos, de acordo com estimativas da ONU. 

Foto: picture-alliance/ZUMAPRESS.com

Terraços como estes na China retêm água e

 podem ajudar paisagens degradadas a se regenerar

Soluções: há uma vasta gama de técnicas de conservação e restauração do solo, como plantio direto, rotação de culturas e a construção de "terraços" para controle da erosão pluvial. Considerando que a segurança alimentar depende da manutenção dos solos em boas condições, é provável que esse desafio seja solucionado no longo prazo. Ainda é uma questão em aberto, porém, se isso vai beneficiar igualmente todas as pessoas ao redor do globo.

5. Superpopulação

O problema: a população humana continua a crescer rapidamente em todo o mundo. A humanidade começou o século 20 com 1,6 bilhão de pessoas. Hoje são cerca de 7,5 bilhões. Estimativas indicam que a população mundial crescerá para quase 10 bilhões até 2050. A combinação de crescimento populacional com ascensão social está pressionando cada vez mais os recursos naturais essenciais, como a água. Grande parte desse crescimento está ocorrendo no continente africano e no sul e leste da Ásia.

 Foto: picture-alliance/Ton Koene 

O empoderamento das mulheres africanas e asiáticas

 é essencial para a sustentabilidade global

Soluções: a experiência tem mostrado que quando as mulheres têm o poder de controlar a sua própria reprodução e ganham acesso à educação e a serviços sociais básicos, o número médio de nascimentos por mulher cai significativamente.

Se forem feitos corretamente, sistemas de assistência podem tirar mulheres da pobreza extrema, mesmo em países onde a atuação do Estado permanece deficiente.



Quem vai pagar pelos danos causados pelas mudanças climáticas? Resposta: os mais pobres

 Isabelle Gerretsen

BBC Future

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Quando o furacão Irma estava prestes a atingir Barbuda, 

o governo local ordenou a evacuação de todos os habitantes da ilha

Em setembro de 2017, John Mussington foi forçado a sair de casa e deixar seus animais para trás quando a pequena ilha caribenha de Barbuda foi atingida pelo furacão Irma, com ventos de 300 km/h.

"Foi devastador", afirma Mussington, que é biólogo marinho e diretor de uma escola na ilha. "As pessoas ficaram traumatizadas, havia muitas construções sem teto, e não tínhamos eletricidade. Nossa primeira preocupação foi: como sobreviver ao dia seguinte?"

O Irma danificou todas as construções de Barbuda, e 23% delas foram totalmente destruídas. Um estudo de 2018 concluiu que as mudanças climáticas aumentaram a intensidade da destruição causada pelos furacões, incluindo o Irma, aumentando as chuvas em 5% a 10%.

O choque inicial foi agravado quando todos os 1,8 mil moradores de Barbuda foram evacuados por um mês para a ilha vizinha, Antígua. Mussington afirma que a evacuação virou a vida dele completamente do avesso.

"Foi o mais traumático de tudo, ficar ali sentado em Antígua preocupado com as fazendas, animais e negócios, em vez de começar a recuperação", relembra ele. "Sou criador de abelhas, e todas as minhas colônias foram destruídas. Perdi meu negócio, junto com muitos fazendeiros e pescadores."

"Quando os países perdem suas ilhas devido ao aumento do nível do mar e eventos extremos, eles perdem sua cultura e suas tradições. Não existe adaptação para isso", segundo Le-Anne Roper, coordenadora de perdas e danos da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (Aosis, na sigla em inglês).

Para os nativos de Barbuda, a destruição da biodiversidade e do ambiente local é uma violação direta do seu modo de vida.

"Toda a nossa cultura, identidade e modo de vida são relacionados ao meio ambiente e aos recursos naturais", segundo Mussington. Ele acrescenta que muitos moradores de Barbuda passam seu tempo livre fora de casa, pescando, caçando e acampando junto à natureza. "É parte da nossa identidade em Barbuda."

As construções danificadas e a perda de trabalho não são as únicas consequências de eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Desde Barbuda até Fiji, culturas inteiras estão em risco. Mas, com maior consciência, novas tecnologias e fortes apelos por apoio internacional, essas pequenas nações insulares estão preparando seu contra-ataque.

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Todas as construções de Barbuda foram danificadas pelo

 furacão Irma e muitas delas ficaram totalmente inabitáveis

A Aosis, que defende os interesses de 39 pequenas nações insulares nas negociações globais sobre o clima, levantou pela primeira vez a questão de perdas e danos em 1991, pouco depois da sua fundação, quando pediu apoio aos ilhéus que enfrentam aumento do nível dos mares.

Os países ricos apresentaram forte resistência a esses apelos, insistindo que o auxílio humanitário é suficiente para lidar com a questão.

Nos 30 anos que se seguiram, pequenos Estados insulares em terras baixas e outros países vulneráveis às ações climáticas continuaram a pedir aos países ricos que os ajudassem a lidar com eventos extremos, como ondas de calor, furacões e enchentes, bem como ameaças climáticas de avanço lento, como o aumento do nível dos mares.

Eles argumentam que os países ricos devem pagar por perdas e danos causados pelo clima, já que eles são responsáveis por quase 80% do histórico de emissões.

Nas discussões sobre o clima global das Nações Unidas em Glasgow, no Reino Unido, em novembro passado, os países em desenvolvimento travaram uma luta árdua para a criação de uma agência formal dedicada ao financiamento de perdas e danos, a ser subordinada à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), para fornecer novo apoio financeiro às nações afetadas.

Mas o pacto final de Glasgow sobre o clima não fez referência ao financiamento climático para cobrir os valores crescentes de perdas e danos em países em desenvolvimento. Os países ricos disseram que estabeleceriam "um diálogo" para discutir "mecanismos para o financiamento de atividades para evitar, minimizar e combater perdas e danos".

Nas discussões sobre o clima, a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, disse aos líderes mundiais que pedir aos países que estão na linha de frente da crise climática, como os pequenos Estados insulares, que paguem pelas mudanças climáticas é "como pedir aos passageiros de um acidente de carro que paguem pelos danos no lugar do motorista".

"A ausência desse financiamento crucial é medida em vidas e no sustento das nossas comunidades", afirmou Mottley, acrescentando que ela considera a situação "imoral" e "injusta". 

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Fiji vem precisando lidar repetidamente com tempestades intensas,

 que devem ficar mais sérias e frequentes com as mudanças climáticas

Os países vulneráveis afirmam que precisam urgentemente de apoio técnico e financeiro, agora que começam a enfrentar os impactos mortais das mudanças climáticas, que se intensificarão à medida que o planeta ficar mais quente.

Segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês), "cada 0,5°C adicional de aquecimento global causa aumentos claramente observáveis da intensidade e da frequência" de eventos extremos, como ondas de calor, fortes chuvas e secas.

"Não podemos mais ignorar [esses impactos]", afirma Adelle Thomas, pesquisadora caribenha sênior da organização alemã Climate Analytics. "Está acontecendo agora [também] nos países desenvolvidos", segundo ela, referindo-se às enchentes na Alemanha no mês de julho, que mataram mais de 200 pessoas e causaram perdas econômicas de até 5 bilhões de euros (R$ 32,4 bilhões).

Um estudo da organização britânica Christian Aid destaca o impacto econômico devastador a ser imposto pelas mudanças climáticas aos 65 países mais vulneráveis do mundo.

Se as temperaturas globais aumentarem em 2,9°C, o PIB dessas nações cairá em 20% até 2050 e em 64% até 2100.

Abordagem preventiva

Todos os anos, Fiji enfrenta eventos extremos, que variam de poderosos ciclones a secas prolongadas, segundo o embaixador do país nas Nações Unidas, Satyendra Prasad. Ele afirma que "10% da nossa economia foram varridos por três eventos só no último ano, enquanto também combatíamos a covid-19. Esta é a diferença entre os países grandes e os pequenos."

Em 2021, Fiji lançou um esquema de seguro paramétrico, em parceria com agências das Nações Unidas, que oferece pagamentos imediatos para as mulheres pobres e outras comunidades vulneráveis após a ocorrência de desastres. Esse financiamento dirigido ajuda as pessoas a reconstruir suas vidas depois de uma catástrofe, segundo Prasad.

O governo de Fiji também está realocando para o interior 20 mil pessoas que vivem em 45 comunidades costeiras, a fim de protegê-las do aumento do nível do mar, com financiamento levantado pelo imposto de adaptação ao clima e ao meio ambiente do país.

"Não se trata apenas de mudar as casas de lugar", segundo Prasad. "Temos que construir novas rodovias, escolas e fornecer eletricidade - tudo o que torna a vida possível."

A pressão constante pela reconstrução após eventos extremos torna quase impossível para Fiji investir na educação, assistência médica e infraestrutura.

"Estamos gastando mais dinheiro reparando e reconstruindo escolas que expandindo a educação", afirma Prasad, que acrescenta que o dinheiro da assistência médica é transferido para serviços sociais, a fim de ajudar na recuperação das comunidades vulneráveis.

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Uma forma de reduzir os danos causados pelas

 mudanças climáticas é melhorar os sistemas de alerta

Já no Paquistão, um projeto piloto lançado pela Start Network — uma coalizão de 50 agências de auxílio e organizações sem fins lucrativos — pretende levar a intervenção precoce um passo adiante. A rede está tentando prever condições climáticas extremas que podem gerar fome e pobreza, detectando sinais de risco com antecedência e agindo com rapidez.

Utilizando imagens de satélite e modelos estatísticos, a ferramenta prevê quando eventos extremos, como secas e enchentes, estão para acontecer e ativa um alerta para intervenção antecipada — fornecendo dinheiro e experiência técnica essencial. Isso permite que as comunidades vulneráveis desenvolvam planos de reação com antecedência e minimizem os impactos tanto quanto possível.

Esse modelo, que prevê reduções do rendimento das safras, permitiu que comunidades do Paquistão começassem a cultivar plantas resistentes à seca, preservar água e imunizar seus rebanhos até um mês antes de uma seca. "É uma reação muito rápida, dirigida e eficaz, antes que o risco chegue ao campo", afirma Amjad Ahmad, coordenador de financiamento de riscos de desastres da rede no Paquistão.

Os resultados iniciais são positivos, segundo Ahmad. Menos crianças saíram da escola, e as famílias não foram forçadas a mudar-se para favelas urbanas em busca de trabalho. As comunidades também tiveram acesso a financiamento antes de serem atingidas pelas secas e outros choques climáticos.

"Não precisamos esperar o sofrimento chegar para que o financiamento seja liberado", segundo Sarah Klassen, consultora de política e defesa de direitos da Start Network. "Estamos realmente considerando a ação proativa como uma das formas práticas em que as organizações humanitárias podem abordar e minimizar perdas e danos causados pelas mudanças climáticas;"

O problema da responsabilidade

Esse tipo de intervenção exige conhecimento tecnológico e, principalmente, dinheiro para seu financiamento. Mas a grande questão é: quem deve pagar a conta?

Os países ricos, que tradicionalmente detêm o maior histórico de emissões, estão preocupados porque poderão ser responsabilizados pelas décadas de poluição que eles causaram. Quando perdas e danos foram incluídos no Acordo de Paris em 2015, os Estados Unidos forçaram a inserção de uma cláusula que indicasse que o acordo "não envolve nem fornece base para responsabilidade ou compensação".

O debate sobre responsabilidade e compensação tornou perdas e danos "um tabu político" e paralisou as negociações, segundo Adelle Thomas.

Apesar de se inscreverem em uma "coalizão muito ambiciosa" com pequenos Estados insulares e nações vulneráveis nas discussões sobre o clima de novembro de 2021 em Glasgow, os Estados Unidos e a União Europeia bloquearam a proposta de criação de uma agência de financiamento de perdas e danos, apresentada pelos países vulneráveis.

Quando questionado sobre a razão da oposição dos Estados Unidos à criação dessa agência, o enviado especial climático de Washington John Kerry disse aos repórteres: "Permanecemos sempre preocupados com a questão da responsabilidade e a quem ela cabe".

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O aprimoramento dos sistemas de alerta pode ajudar a elaborar intervenções

 de auxílio e prevenção antes da chegada de um período de fenômenos climáticos intensos

Satyendra Prasad, o embaixador de Fiji, afirma que as negociações políticas precisam avançar para além desse dilema. Para ele, "elas deveriam tratar da solução de problemas a longo prazo e não de compensação e quem é responsável por quanto".

Fornecer apoio por perdas e danos não é apenas altruísmo, afirma Olivia Serdeczny, analista de pesquisa da Climate Analytics, especializada em perdas e danos. "Em algum momento, os países desenvolvidos poderão agir em seu próprio interesse. Eles não querem que os sistemas políticos dos países em desenvolvimento se desestabilizem e tenham que enfrentar migrantes climáticos", afirma ela.

Quanto é necessário?

Os ativistas afirmam que os países vulneráveis precisam de pelo menos US$ 300 bilhões (R$ 1,7 trilhão) por ano para cobrir perdas e danos até 2030. Os países em desenvolvimento indicam que esse financiamento para recuperação deverá somar-se ao dinheiro reservado para atenuação e adaptação climática, que se enquadra em um compromisso de financiamento climático global.

"O volume e a escala dos recursos [necessários] está além do que países como o nosso podem pagar", afirma Prasad. "Nós precisamos de recursos dedicados para fins exclusivos de cobrir perdas e danos."

Nas negociações sobre o clima das Nações Unidas em novembro de 2021, a Escócia tornou-se o primeiro país do mundo a reservar financiamento específico para perdas e danos, cerca de 2 milhões de libras (R$ 15,3 milhões), para ajudar as comunidades na linha de frente da crise climática. O valor é pequeno, mas o compromisso foi considerado altamente simbólico. Ainda assim, outros países negaram-se a abrir um novo canal de financiamento climático.

Uma área na qual se fez progressos nas negociações foi a concordância dos países ricos em financiar a Rede de Santiago, um mecanismo formado em 2019 para fornecer assistência técnica a países que vêm sofrendo perdas e danos. A ideia é tornar essa rede operante antes da próxima reunião climática da ONU, que será realizada no Egito, em novembro de 2022.

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Países ricos e pobres enfrentarão os impactos das mudanças climáticas

 e precisarão adaptar-se — mas nem todos têm os recursos para fazê-lo tão facilmente

"Espera-se fornecer assistência técnica voltada à demanda e a soluções para os países", segundo Harjeet Singh, consultor da rede de organizações ambientais Climate Action Network International.

"Esse apoio ajudará a gerar conhecimento e informação para os países que precisam de assistência técnica para lidar com a intensidade e frequência crescentes de eventos climáticos extremos e novos desafios, como o aumento do nível dos mares, derretimento das geleiras e acidificação dos oceanos", afirma ele.

Mas os países vulneráveis afirmam que a rede sozinha faz pouco para reduzir os desafios enfrentados. "[Os desastres climáticos] são a realidade que estamos vivendo", afirma Prasad. "Todos os anos estamos postergando as ações e aumentando a escala dos problemas de perdas e danos."

"Estamos realmente em um momento crítico", segundo Thomas. "Estamos atingindo nosso limite de espera e luta."

Depois do furacão Irma, o financiamento de perdas e danos teria ajudado Barbuda a reconstruir-se mais de forma rápida e adaptável, para que a ilha pudesse suportar furacões futuros, segundo o biólogo marinho John Mussington.

Ele afirma que o dinheiro poderia ser usado para mudar a principal fonte energética de Barbuda para energia renovável, como a eólica, que não só é mais sustentável, mas pode também ser adaptada para melhor suportar as tempestades e manter as luzes acesas após tempestades severas.

O apoio internacional permitiria ainda maior investimento nos mangues, recifes de corais e praias de Barbuda — que são parte fundamental da vida cultural da ilha e agem como barreiras importantes contra as marés de tempestades, acrescenta Mussington. "Se não os preservarmos, não manteremos nossa cultura e nossa identidade."

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.





Últimos sete anos foram os mais quentes já registrados

 Deutsche Welle

Serviço europeu Copernicus aponta que, em 2021, temperatura global ficou 1,2 °C acima dos níveis pré-industriais. Relatório alerta também para concentração recorde de metano na atmosfera. 

Os últimos sete anos foram os mais quentes já registrados globalmente "por uma margem clara", comunicou o serviço de monitoramento do clima da União Europeia (UE) nesta segunda-feira (10/01). Análises preliminares apontaram que a temperatura global em 2021 ficou 1,2 °C acima dos níveis pré-industriais.

Em sua avaliação anual mais recente, o Copernicus Climate Change Service (C3S) confirmou que o ano de 2021 se juntou à sequência de calor ininterrupta desde 2015 – e alertou também sobre aumentos nas concentrações de metano na atmosfera.

A pesquisa do C3S chegou à conclusão de que o ano passado foi o quinto mais quente já registrado – ligeiramente mais quente do que 2015 e 2018. As medições remontam a meados do século 19.

"O ano de 2021 foi mais um de temperaturas extremas, com o verão mais quente da Europa, ondas de calor no Mediterrâneo, sem mencionar as altas temperaturas sem precedentes na América do Norte", disse o diretor do C3S Carlo Buontempo.

"Esses eventos são um forte lembrete da necessidade de mudar nossos caminhos, dar passos decisivos e eficazes em direção a uma sociedade sustentável e trabalhar para reduzir as emissões de carbono", afirmou Buontempo.

O relatório apontou que diversos países ao redor do mundo foram atingidos por desastres climáticos relacionados ao aquecimento global nos últimos anos. Entre os exemplos citados estão incêndios florestais recordes na Austrália e na Sibéria, uma onda de calor devastadora na América do Norte e chuvas torrenciais que causaram enormes inundações na Ásia, África, nos EUA e na Europa.

Recorde de metano na atmosfera

A agência europeia C3S também monitorou as concentrações atmosféricas dos gases de efeito estufa e concluiu que houve um aumento de dióxido de carbono e metano e afirmou não haver sinais de uma desaceleração.

A concentração de metano apresentou uma alta "muito substancial" e alcançou um recorde anual de cerca de 1.876 partes por bilhão (ppb). As taxas de crescimento para 2020 e 2021 foram de 14,6 ppb e 16,3 ppb, respectivamente. Os valores correspondem a mais do que o dobro da taxa média de crescimento anual observada nos 17 anos anteriores.

No entanto, segundo o C3S, uma série de fontes naturais e antropogênicas tornou difícil identificar por qual razão houve um aumento tão acentuado nos últimos anos. O metano (CH4) é o gás mais responsável pelo aquecimento global depois do dióxido de carbono (CO2). Embora tenha vida curta na atmosfera, o metano é muitas vezes mais potente do que o CO2.

As fontes naturais de metano incluem as zonas úmidas do globo terrestre, enquanto as fontes induzidas pelos seres humanos são as extrações de gás natural e a produção de petróleo, mineração de carvão e aterros sanitários, bem como arrozais, pecuária e manuseio de estrume.

"Um alerta para políticos e opinião pública"

Vincent-Henri Peuch, diretor do serviço de monitoramento Copernicus, que tem catalogado o aumento dos gases de efeito estufa, disse que as evidências observacionais são cruciais para direcionar os esforços para prevenir uma "catástrofe climática".

Reduzir a quantidade de metano que chega à atmosfera resultaria rapidamente numa desaceleração do aumento das temperaturas e ajudaria a fechar a lacuna entre a meta do Acordo de Paris de um limite de 1,5 °C no aquecimento e os 2,7 °C para os quais as previsões atuais estão apontando – mesmo que todas as nações honrassem suas promessas de redução de carbono.

Na COP26 no ano passado, cerca de 100 nações aderiram a uma inciativa para reduzir as emissões de metano em pelo menos 30% nesta década. As indústrias de petróleo e gás têm o maior potencial para reduções rápidas, especialmente por meio de detecção e reparo de vazamentos de gás durante a produção e o transporte.

Embora o aquecimento global possa parecer gradual, seu impacto em eventos extremos é dramático, segundo Rowan Sutton, do Centro Nacional de Ciências Atmosféricas da Universidade de Reading, no Reino Unido.

"Devemos ver os eventos recordes de 2021, como a onda de calor no Canadá e as inundações na Alemanha, como um alerta para que políticos e a opinião pública acordem para a urgência da emergência climática", disse Sutton. "Além disso, os contínuos aumentos nas concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera indicam que as causas subjacentes ainda precisam ser abordadas."

pv/lf (AFP, ots) 


Demanda global por carne impulsiona desmatamento no Brasil

 Gero Rueter | Marcio Damasceno

Deutsche Welle

A carne bovina é hoje um dos principais motores do desmatamento, diz análise de fundação alemã. Produção impacta meio ambiente devido à demanda por soja para ração e consequente uso de agrotóxicos. 

O crescente consumo de carne no mundo e as ações do atual governo brasileiro são ingredientes de uma receita que está levando à destruição florestal no Brasil. Esta é uma das conclusões do relatório a Fleischatlas 2021 ("Atlas da carne 2021"), apresentado nesta quarta-feira (06/01) em Berlim.

"A carne bovina é hoje um dos principais impulsionadores de desmatamento. Isso leva à destruição dos meios de subsistência de comunidades indígenas e de pequenos proprietários. Na Amazônia, o gado pasta em 63% de todas as áreas desmatadas. Entre 70% e 80% de todas as importações de carne bovina da UE vêm dos países do Mercosul. E 50% dos produtos agrícolas enviados à União Europeia (UE) vindos do Brasil são produto do desmatamento, especialmente soja, carne bovina e café", diz o texto.

"A produção industrial de carne não é apenas responsável pela precariedade das condições de trabalho, mas também afasta as pessoas de suas terras, provoca o desmatamento, o uso de pesticidas e a perda de biodiversidade – e é uma das principais causas da crise climática", afirma Barbara Unmüssig, presidente da Fundação Heinrich Böll,

Produzido pela Fundação Heinrich-Böll – ligada ao Partido Verde alemão –, pela organização ambientalista Bund e pela edição alemã do jornal francês Le Monde Diplomatique, o relatório apresenta soluções com o objetivo de reduzir o consumo de carne, aumentar a conscientização das pessoas para que desfrutem de produtos de maior qualidade e também fazer com que elas valorizem mais os animais e os produtos que originam. 

Destruição florestal

A demanda global por carne está aumentando devido ao crescimento populacional e econômico – um grande problema para o clima e o meio ambiente. Em 1960, havia 3 bilhões de pessoas na Terra e, de acordo com o relatório, o consumo de carne era de cerca de 70 milhões de toneladas, o que é uma média global de 23 quilos por pessoa por ano.

Em 2018, já havia mais do que o dobro de pessoas na Terra: 7,6 bilhões. Com cerca de 350 milhões de toneladas, o consumo de carne era sete vezes maior, e a média global era de 46 quilos por pessoa por ano.

Um problema central é a imensa necessidade de terras para a produção de carne. De acordo com dados do governo alemão, 71% da terra arável global é usada atualmente para produção de ração animal, quatro vezes mais do que a parcela utilizada diretamente para a produção de alimentos (18%) e muito mais do que para outras matérias-primas, como algodão (7%) ou culturas energéticas, como milho para produção de biogás ou cana-de-açúcar para fabricação de etanol (4%).

A pressão sobre as terras aráveis disponíveis globalmente está crescendo com o aumento da demanda global por carne, e assim enormes áreas de floresta estão sendo desmatadas, especialmente para o cultivo de soja para produção de ração animal, como é o caso do Brasil. "Hoje 90% da soja são destinados à alimentação animal", diz Unmüssig. 

Soja como vilão

O relatório alerta que o aumento do consumo mundial de carne faz com que a procura por ração dispare no mercado, apontando a soja como o grande vilão.

"Os maiores produtores de soja são Brasil, com 133 milhões de toneladas anuais; os EUA, com 117 milhões; e a Argentina, com 53 milhões de toneladas", destaca o texto. O Brasil também é o maior exportador de soja, com 74 milhões de toneladas anuais, de acordo com o texto, seguido pelos EUA.

Os especialistas pedem uma mudança para uma dieta com menos carne e mais alimentos vegetais, o que requer muito menos terras aráveis, com intuito de alimentar bem a população mundial, parar de derrubar florestas tropicais para produção de ração animal e criação de gado e, ao mesmo tempo, ter áreas para reflorestamento novamente.

Amazônia e Cerrado sob ameaça

O relatório aponta que entre 2006 e 2017, 220 mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos na Amazônia e no Cerrado brasileiros, o que corresponde a mais de 60% do tamanho da Alemanha. Desse território, cerca de 10% foram utilizados para plantação de soja.

O texto afirma também que o Cerrado vem sendo desmatado de forma massiva devido à moratória da soja na Amazônia, que "proíbe o comércio da soja que venha área florestal desmatada após 2008, mas só na Amazônia". "E a produção da soja foi transferida para o Cerrado".

Provas de que houve retrocessos em relação à proteção ambiental seriam os incêndios florestais de 2019 e 2020, "que foram sobretudo resultado de queimadas – entre outras, para plantações de soja". O texto afirma que imagens de satélite mostram que muitas queimadas ocorreram na proximidade imediata de fábricas de carne e armazéns de soja. "Isso é apoiado pela política do presidente Jair Bolsonaro, que está continuamente relaxando as regras para proteção ambiental", ressalta o texto.

De acordo com um estudo da prestigiada revista Science publicado em 2020, 20% das exportações de soja para a UE da Amazônia e do Cerrado são originadas de terras desmatadas ilegalmente. Assim, o consumo de carne na Europa está diretamente relacionado ao desmatamento no Brasil.

Novo cardápio para o mundo

Cientistas de renome mundial como Johan Rockström, Diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK) recomendam no Relatório de Vida Saudável em um Planeta Saudável uma mudança na dieta para uma média de 16 quilos de carne e 33 quilos de laticínios por pessoa por ano. A Índia e muitos países africanos mostram, com sua dieta tradicional, que isso é possível. Na América do Norte e do Sul e na Europa, por outro lado, atualmente são consumidas até sete vezes mais carne.

Os autores do relatório Fleischatlas 2021 não apenas mostram o poder e a força da indústria internacional de carne e seus efeitos globais, mas também expõem suas conexões com a indústria química global.

 

Por um lado, os grandes grupos produtores de carnes e alimentos (a gigante da carne brasileira JBS é um destaque citado) estão cada vez mais dominando o mercado de cultivo, transporte, abate e comercialização de rações, colocando assim em risco a existência de pecuaristas e matadouros de menor porte.

Também é demonstrado como, por outro lado, agrotóxicos altamente perigosos e às vezes proibidos para a alimentação animal são exportados pelas grandes empresas químicas e pulverizados em muitas regiões. Entre os produtores e exportadores de tais produtos químicos estão Bayer Crop Science, Basf e Syngenta da Europa, assim como Corteva e FMS, dos EUA.

Milhares de mortes por agrotóxico

A utilização de agrotóxicos gera milhares de mortos, segundo Unmüssig. "O governo alemão deve fazer tudo para que os conglomerados alemães não mais exportem esses venenos proibidos na UE", ressalta Olaf Bandt, presidente da organização ambientalista Bund, alertando que esse tipo de comércio deve aumentar com o acordo entre Mercosul e UE.

O Brasil está entre os maiores consumidores mundiais de pesticidas, com quase 230 mil toneladas anuais, atrás apenas dos EUA, com mais de 250 mil toneladas. Junto com Argentina (161 mil toneladas), os três países são responsáveis por 70% do consumo mundial de herbicidas. Hoje, são utilizadas nove vezes mais pesticidas no Brasil do que há 30 anos. Só o plantio de soja é responsável, de acordo com o relatório, por cerca de 52% da venda total de pesticidas no país.

Antibióticos

Além disso, a adição permanente de antibióticos na criação de animais para abate leva a germes cada vez mais resistentes. Isso ameaça a eficácia dos antibióticos na medicina humana e, portanto, põe em perigo vidas humanas – incluindo as de vegetarianos e veganos, aponta o relatório.

O desmatamento de florestas para produção de ração animal também é uma ameaça à saúde humana. Animais selvagens estão perdendo seus habitats, o contato deles com humanos está cada vez mais próximo, o que favorece a transmissão de vírus e o surgimento de novas pandemias.


Os desafios do setor industrial responsável por um terço do lixo mundial

 Norman Miller

BBC Future

 CRÉDITO,ROTOR

Algumas empresas estão buscando material residual, 

como tijolos recuperados, para uso em construções novas.

Todos os anos, nós esmagamos, puxamos e retiramos cerca de 100 bilhões de toneladas de matéria-prima do tecido do planeta. Essa quantidade equivale a destruir dois terços da massa do Monte Everest a cada 12 meses.

Cerca de metade da matéria-prima que extraímos vai para a indústria da construção, que gera cerca de um terço de todos os resíduos do planeta e pelo menos 40% das emissões mundiais de dióxido de carbono. Compare esse número com os 2-3% causados pela aviação, que causa muito mais perturbação entre as pessoas.

Os "resíduos" do consumo dessas matérias-primas são descartados em quantidades tão imensas que a sua pegada ambiental ajudou a criar uma nova era, que recebeu o nome de "Antropoceno".

Os arqueólogos do futuro irão cavar por entre camadas de entulho para entender como vivemos.

Mas esse material que usamos e descartamos hoje em dia também contém um enorme tesouro que poderá ser utilizado em nosso benefício.

Calcula-se que uma tonelada de telefones celulares contenha 300 vezes mais ouro que uma tonelada de minério de ouro da melhor qualidade, além de quantidades significativas de prata, platina, paládio e metais raros - enquanto seguimos rasgando a terra com a mineração contínua para conseguir mais desses materiais.

As vastas quantidades de cobre disponíveis em bilhões de cabos existentes em todo o mundo são uma fonte reutilizável de metal com uma taxa de concentração bem mais elevada do que os menos de 1% existentes em minérios de qualidade superior.

Tudo isso gera uma questão óbvia: por que não reutilizamos o que já extraímos, em vez de escavar o planeta em busca de cada vez mais matérias-primas?

Esse pensamento vem estimulando um grupo cada vez maior de arquitetos e empresas de construção a examinar como reutilizar a imensa quantidade de materiais ocultos nos ambientes que já construímos, desde concreto e madeira até riquezas metálicas do lixo eletrônico. 

CRÉDITO,FOLKE KÖBBERLING/MARTIN KALTWASSER

Garrafas e copos de plástico usados são 

transformados em tetos de pontos de ônibus na Itália

Em 2005, o escritório de arquitetura Superuse, com sede em Roterdã, na Holanda, estabeleceu um marco inovador para uma nova visão da construção civil ao criar a Villa Welpeloo - a primeira casa contemporânea do mundo feita principalmente com resíduos de materiais de construção.

Aço de máquinas têxteis antigas e madeira de bobinas de cabos industriais danificadas compõem 60% dos materiais de segunda mão empregados na construção.

Posteriormente, em 2013, o arquiteto britânico Duncan Baker-Brown ultrapassou a Superuse ao utilizar mais de 90% de materiais residuais para construir a Casa de Resíduos de Brighton, na Inglaterra.

Baker-Brown combinou vários materiais diferentes, desde brim usado até estojos plásticos de DVD e escovas de dente descartadas, para compor o isolamento das paredes, além de câmaras de ar de pneus de bicicletas antigas para isolar o piso contra som e impactos.

Cerca de 10 toneladas de solo calcário destinado a aterros foram recolhidas para criar paredes de terra prensada e as placas de carpete usadas de um escritório forneceram o revestimento externo.

"A casa de resíduos é um projeto de pesquisa 'vivo' que faz com que as pessoas pensem na origem desses materiais e onde eles terminam", afirma Baker-Brown.

Ele construiu um modelo de uma nova forma de construção com o mínimo de resíduos no seu livro The Re-Use Atlas ("Atlas do reúso", em tradução livre), de 2017, que ensina seus princípios para uma geração crescente de arquitetos e construtores da faculdade de arquitetura da Universidade de Brighton.

Ele oferece uma redefinição simples e poderosa dos resíduos como sendo "apenas coisas úteis no lugar errado".

Embora essas ideias sejam incluídas no setor de "economia circular", Baker-Brown utiliza uma expressão com maior impacto: ele ressalta a necessidade de "minerar o Antropoceno" em vez de cavar novos materiais.

"Precisamos nos tornar 'mineradores urbanos' e retrabalhar [ou] reutilizar construções, componentes e fontes de materiais já disponíveis", escreveu ele em uma chamada para ação mobilizadora publicada na revista do Instituto Real de Arquitetos Britânicos em 2019.

Baker-Brown está atualmente terminando um pavilhão para a Ópera de Glyndebourne em Sussex, no Reino Unido, que é conhecida mundialmente.

O pavilhão está sendo construído com produtos residuais que incluem cascas de ostras, rolhas de champanhe e tijolos mal cozidos rejeitados de uma fábrica de tijolos próxima.

Fundamentalmente, ele também está empregando esses materiais de forma que facilite sua desconstrução posterior - unindo os elementos com pregos em vez de cola, por exemplo - para criar o que ele chama de "uma loja de materiais para o futuro".

A ideia de projetar construções especificamente com o reúso em mente ganhou o rótulo "design para desconstrução".

Os Jogos Olímpicos de 2012 mostraram essas ideias em ação com a construção de acomodações temporárias para 17 mil atletas em Londres.

Para isso, as construções foram projetadas de forma que pudessem ser remodeladas posteriormente na forma de casas sustentáveis para habitantes locais, graças a elementos como paredes divisórias nos andares, que podem ser movidas facilmente para formar novas configurações.

Mas as pessoas dispostas a minerar o Antropoceno precisam trabalhar principalmente com construções existentes que não foram projetadas para desconstrução ou reconstrução.

O escritório holandês Maurer United Architects respondeu a esse desafio construindo 125 novas moradias sociais com mais de 90% de materiais reciclados de blocos de apartamentos antigos no empreendimento Superlocal Estate, na cidade de Kerkrade, na Holanda.

Trechos enormes de piso de concreto foram cortados e erguidos dos antigos edifícios e depositados para fornecer as estruturas das casas novas, enquanto o concreto restante foi triturado no local para reúso, em uma abordagem que o fundador do escritório, Mark Maurer, chama de "demolição inteligente".

CRÉDITO,DUNCAN BAKER-BROWN

A 'casa de resíduos' da Universidade de Brighton, na Inglaterra, 

foi construída com mais de 90% de materiais residuais.

Uma chave para a mineração bem sucedida do Antropoceno para nossas construções futuras é elaborar maneiras de reutilizar os materiais existentes em uma infinidade de formas.

Folke Köbberling, professora de arte relacionada à arquitetura da Universidade Técnica de Braunschweig, na Alemanha, passou anos aperfeiçoando formas de reutilizar materiais.

"Usar material reciclado é diferente de trabalhar com materiais novos", afirma ela. "Esses materiais têm uma história. Nós buscamos os materiais e tentamos utilizá-los como eles chegam, de forma muito flexível."

Um exemplo é o anfiteatro que ela e seu colega Martin Kaltwasser construíram em 2008 no Centro de Artes Wysing, perto de Cambridge, no Reino Unido.

Feito principalmente com 400 pallets de madeira recuperados de construções locais, ele também inclui janelas de antigas estufas e pisos de madeira de teca reciclados de prateleiras descartadas pela Universidade de Cambridge.

Com custo total de apenas 5 mil euros (R$ 30,7 mil), a construção foi idealizada para fornecer um espaço diferenciado para as artes por dois anos, até ser desmontado para reutilizar seus materiais em outro lugar. Mas ele ainda está servindo muito bem.

Köbberling também descobriu que lã de carneiro bruta descartada serve de excelente filtro de poluição e isolamento das paredes e transformou ainda milhares de garrafas e copos plásticos descartados na Maratona de Berlim em material para tetos de pontos de ônibus.

Conectar a fonte desses materiais à demanda por componentes é um elemento chave no esforço para reinventar os resíduos como novo material de construção.

"Precisamos encontrar uma forma de criar prosperidade e valor agregado, não pela produção de novas mercadorias, mas com a manutenção e gestão das mercadorias existentes", afirma Michael Ghyoot, cofundador da empresa de design Rotor, com sede em Bruxelas, na Bélgica - que está concentrando esforços para facilitar o reúso pelos profissionais da construção.

A Rotor associou-se a outras empresas da Europa em um projeto financiado pela União Europeia para formar um diretório online que já reuniu pouco mais de 1 mil comerciantes especializados na recuperação de materiais e empresas correlatas (a pandemia prejudicou o objetivo original de reunir 1,5 mil participantes).

Ela também está criando um kit de ferramentas pré-demolição para ajudar as empresas a determinar o potencial de reúso de materiais e produtos presentes em construções previstas para demolição ou revitalização.

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Niyazahmed Shaikh examina cuidadosamente rolos de fios 

produzidos com sucata de tiras de aço na sua fábrica na Índia

A remodelagem da Torre de Montparnasse, com 59 andares, pelo escritório de arquitetura Bellastock, com sede em Paris, na França, é outro exemplo da mineração do Antropoceno em ação.

Os arquitetos utilizaram concreto, vidro e aço da fachada e do interior da construção para ajudar a criar novos níveis e espaços, sem recorrer a resíduos de demolição.

A torre transformada está programada para ficar pronta a tempo para receber visitantes nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

Mathilde Billet, diretora técnica de reúso da Bellastock e gerente de projetos da des/reconstrução da Torre de Montparnasse, argumenta que comportamentos arraigados no setor da construção, e não barreiras práticas, são o principal obstáculo para a implementação generalizada do princípio de reúso.

"O mais difícil é mudar nossa forma de pensar", afirma ela, acrescentando que o aumento da consciência, treinamento, conferências e simplesmente falar podem remover grande parte desse medo de mudança.

"Precisamos imaginar a cidade como um banco de materiais, propício para o reúso. Não existem mudanças significativas. Custa apenas um pouco de vontade e agilidade", ela diz.

Michael Ghyoot também salienta que o processo de tornar os materiais existentes prontos para reúso cria uma série de novos empregos.

"Essa atividade é trabalhosa: [exige ações como] limpar as pontas de uma laje de mármore, remover cimento de telhas, substituir os fios de aparelhos elétricos antigos - e documentar todos os materiais", segundo ele.

Para Mathilde Billet, os princípios que sustentam a mineração do Antropoceno também se harmonizam com as práticas antigas, seja o reúso de pedras de construções antigas, que foi algo comum por séculos, ou a reconstrução constante de grandes construções de argila, em países como o Máli.

"O reúso exige tecnologia antiga", afirma ela. "Essa tecnologia existe em quase todos os lugares do planeta, mas está morrendo lentamente." A situação alarmante em que nos encontramos significa que precisamos retornar para uma arquitetura mais frugal, segundo ela: "uma arquitetura construída com o material do local onde ela se encontra".

Longe de ser algo totalmente oposto à economia prática, uma análise de cinco países da União Europeia pelo Clube de Roma em 2020 concluiu que mudar para uma economia mais circular reduziria suas emissões de carbono em dois terços e criaria mais de um milhão de novos empregos.

O que realmente faz pouco sentido econômico ou ambiental é continuar a escavar bilhões de toneladas de matérias-primas novas do planeta.

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.





Por que um dos países mais ricos do mundo está se tornando inabitável

 Ernesto Neves 

Veja online

Kuwait, no Oriente Médio, vem atingindo temperaturas insuportáveis à sobrevivência humana

  Getty/Getty Images

Kuwait City, capital do Kuwait, tem

 enfrentado temperaturas de 54° Celsius 

Com seu território inteiramente ocupado por desertos, o Kuwait, país de 2,7 milhões de habitantes encravado na península do Golfo Pérsico, sempre teve de lidar com temperaturas elevadas.

Mesmo assim, o país assiste alarmado à escalada sem precedentes em seus termômetros. Não à toa, a capital, Kuwait City, é hoje considerada a metrópole mais quente do mundo.

A cada verão, a cidade vem cravando temperaturas muito acima dos 40°C. Em 2021, Kuwait City registrou pela primeira vez estonteantes 50°C em junho, semanas antes de o verão atingir seu auge.

A cidade detém o recorde de 54°C batido em 2016, o maior registro feito na Terra nos últimos 80 anos.

Climatologistas advertem que a repetição de eventos extremos por lá não é coincidência.

E que o Kuwait, quarto maior exportador de petróleo do planeta, está à beira de se tornar inabitável como resultado do aquecimento global.

De acordo com o serviço meteorológico do Kuwait, a temperatura média local pode subir 4.5°C entre 2070 e 2100. Uma escalada que, avisam, tornaria toda a região inabitável.

Ambientalistas garantem que o cenário já está se concretizando. Durante as estações mais quentes,  chama a atenção a profusão de pássaros que sucumbem ao calor e morrem nas ruas e telhados de prédios de Kuwait City.

Em 2021, imagens de palmeiras plantadas em rodovias da capital completamente esturricadas viralizaram nas redes sociais. As árvores mortas chocaram as gerações mais jovens, justamente a parcela da população que terá de arcar com as piores consequências do efeito estufa.

Outro alerta que vem da vida silvestre é a fuga das raposas selvagens. Animais resistentes à secura, elas estão abandonando o deserto para buscar abrigo em áreas urbanas sombreadas.

Isso porque a pouca vegetação que antes florescia em algumas áreas do deserto em meses mais amenos, e que servia de proteção, já não consegue mais prosperar com o sol inclemente.

 Reprodução/Reprodução

Palmeiras esturricadas pelo sol em Kuwait City: 

nem a vegetação nativa do deserto aguenta a escalada nos termômetros 

Mesmo com a urgência climática batendo à porta, o Kuwait pouco faz para iniciar sua transição para a economia de baixo carbono.

Durante a COP 26, em 2021, o governo afirmou que vai reduzir suas emissões de poluentes em 7.4% até 2035, compromisso muito abaixo dos seus vizinhos no Oriente Médio.

O país também não discute sua dependência do automóvel, tampouco a criação de sistemas eficientes de transporte público.

Pesquisa conduzida pela London School of Economics mostrou que a maior parte da população do país não crê em aquecimento global.

Além disso, uma consulta pública realizada pelo governo apontou que todos os cidadãos com mais de 50 anos rejeitam investimentos em malhas de metrô semelhantes às que operam em Dubai, nos Emirados Árabes, e em Riad, na Arábia Saudita.

A alienação é explicada, em parte, pela bolha de riqueza e conforto em que vive parte expressiva dos seus cidadãos.

Os moradores do emirado costumam permanecer em ambientes refrigerados 24 horas por dia. Casas, carros e shopping centers estão preparados para o calor extremo.

Um luxo que não é estendido aos imigrantes. Oriunda de países mais pobres da Ásia e da África, essa parcela chega ao Kuwait para trabalhar principalmente construção civil e em trabalhos braçais.

Embora o governo tenha proibido o trabalho ao ar livre durante os meses mais quentes, autoridades preferem ignorar o problema, sendo comum ver imigrantes realizando tarefas sob o sol.

Mas, no longo prazo, climatologistas afirmam que o calor incontrolável deverá trazer impactar pobres e ricos.

Entre 2040 e 2050, o clima extremo será tão comum que afetará a capacidade de desenvolvimento econômico do Kuwait, segundo análise feita pela consultoria de risco Fitch.

Para piorar, agência cita ainda outro fator complicador.

As disputas entre o parlamento do Kuwait, o único do Golfo, e o governo nomeado pela família real estão inviabilizando a implementação de reformas que adaptem o país à nova era de extremos.

 Getty/Getty Images

Shopping center de Kuwait City: ambientes fechados 

são a única opção de lazer nos horários de maior calor 


Ibama gastou 41% da verba para fiscalização em 2021

 Deutsche Welle

Dados do Observatório do Clima apontam que a baixa fiscalização de crimes ambientais não foi por falta de recursos. Enquanto a taxa de desmatamento aumentou, registrou-se o menor número de multas em duas décadas. 

O Ibama gastou menos da metade de seu orçamento para fiscalizar crimes ambientais, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (01/02) pelo Observatório do Clima, uma rede que reúne dezenas de organizações civis.

Dos 219 milhões de reais disponíveis, apenas 88 milhões de reais (41%) foram liquidados para fiscalizar crimes ambientais nos biomas brasileiros. O dado revela dois aspectos: não foi por falta de recursos que o desmatamento aumentou em 2021 pelo terceiro ano consecutivo, e o governo federal fez pouco uso da verba extra obtida perante o Congresso justamente para ampliar a fiscalização.

O documento, que usou como base dados públicos do orçamento federal, multas e embargos ao Ibama, leva o nome "A conta chegou: o terceiro ano da destruição ambiental sob Jair Bolsonaro". Seus autores alegaram que não faltou dinheiro, mas vontade do governo de fiscalizar.

A maior parte da verba não utilizada foi destinada a outros gastos do Ibama em 2022, como aquisição de equipamentos, em vez de financiar diretamente as operações de campo. O Ibama gastou cerca de 75% de seu orçamento geral de 1,8 bilhão de reais em 2021, majoritariamente em folha de pagamento, pensões e outros gastos obrigatórios.

"Se Ibama não atua, desmatamento sobe"

O Ibama afirmou à agência de notícias Reuters que a forma mais adequada de mensurar os gastos públicos é por meio do valor que foi comprometido, mesmo que o dinheiro ainda não tenha sido gasto. Mas o Observatório do Clima rebate que o financiamento poderia ter sido empregado em esforços diretos para combater o desmatamento acelerado no ano passado.

Suely Araújo, ex-diretora do Ibama e agora especialista em Políticas Públicas do Observatório do Clima, relatou que, embora o Ibama sempre repasse recursos para o ano seguinte, é incomum que seja um volume tão significativo. Nos três governos anteriores a Bolsonaro, o instituto costumava liquidar entre 86% e 92% dos recursos para a fiscalização.

"Para que seja eficaz, é preciso olhar para o que é gasto e pago, não apenas para o que está comprometido. Se está comprometido, não há como saber se realmente vai se concretizar", disse Araújo. Segundo ela, há uma relação direta entre taxa de desmatamento e fiscalização.

"O Ibama tem uma participação grande historicamente no combate ao desmatamento da Amazônia Legal. Sempre foi uma área prioritária de atuação", disse a ex-diretora. "Quando o Ibama não está atuando bem, o desmatamento sobe."

Bolsonaro enaltece redução de multas e infrações

A redução da aplicação dos recursos destinados à fiscalização ocorre em meio a um novo aumento das taxas de desmatamento – justamente no mesmo ano em que o Brasil prometeu na COP26 acabar com o desmatamento ilegal até 2028. Segundo dados do Inpe, o país perdeu entre agosto de 2020 e julho de 2021 cerca de 13 mil quilômetros quadrados de floresta – a maior área desde 2006.

E se há menos fiscalização, há menos multas. O volume de autos de infração por desmatamento em 2021 foi o menor em duas décadas. O número de embargos de propriedade caiu 70% em relação a 2018. A queda de infrações foi inclusive alvo de elogios: em janeiro, Bolsonaro se gabou de que seu governo teria reduzido em 80% o número de multas.

No fim de 2021, o meio ambiente brasileiro sofreu três derrotas legislativas significativas: o incentivo ao carvão mineral até 2024, a privatização da Eletrobras e a mudança no Código Florestal que repassou a regulamentação das áreas de preservação permanente urbanas aos municípios.

pv/av (Reuters, ots)


O dilema das usinas na Amazônia

 Editorial

O Estado de São Paulo

A retomada de estudos sobre a construção de hidrelétricas na Região Amazônica é uma boa notícia para o País, desde que os custos desses empreendimentos sejam devidamente catalogados e alocados nos projetos, e não apenas nas tarifas pagas pelo consumidor. Como o Estadão revelou, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a Eletrobras e sua subsidiária Eletronorte a elaborarem relatórios sobre a viabilidade técnica e econômica das Usinas de Jamanxim, Cachoeira do Caí e Cachoeira dos Patos, na Bacia do Rio Tapajós, no Pará. Juntas, elas teriam capacidade de produzir energia suficiente para abastecer mais de 3 milhões de famílias.

A despeito das necessidades de expansão do sistema elétrico e do aumento de sua confiabilidade, evidenciadas ao longo de 2021, quando o País esteve à beira de apagões, a ideia só terá alguma chance de sucesso se todos os riscos do projeto forem devidamente considerados. Os desafios vão muito além de questões socioambientais. Embora seja plenamente possível construir usinas de grande porte na Região Norte, não se trata de tarefa fácil ou barata, e os problemas permanecem mesmo depois de anos de sua conclusão. É o caso das Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, e de Belo Monte, na Bacia do Xingu.

Licitadas com alarde pelo critério da menor tarifa durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, essas três usinas são alvo recorrente de propostas de parlamentares que tentam socorrê-las por meio de jabutis embutidos em medidas provisórias. Os consórcios formados para disputa desses empreendimentos contaram com a participação de subsidiárias da Eletrobras, uma garantia de que não haveria obstáculos para renegociar as “patrióticas” taxas de retorno previamente estabelecidas. Em um enorme conflito de interesses, grandes construtoras se associaram aos projetos e contratavam a si mesmas para tocar as obras. Elevar os gastos era de interesse da empreiteira, enquanto a cobertura dos custos era dividida entre todos os integrantes da concessionária – que, depois, repassavam tudo para as contas de luz.

Outra despesa que foi menosprezada à época foram as redes de transmissão. As três usinas exigiram a viabilização de linhas de mais de 2 mil quilômetros de extensão para transportar eletricidade até a Região Sudeste, onde fica o maior mercado consumidor. Para reduzir o valor do investimento necessário, o governo propositalmente subestimou os custos dessa estrutura para os geradores, e quem pagou a conta, como sempre, foi o consumidor. Por fim, quem financiou 70% das obras foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com taxas subsidiadas bancadas pelo Tesouro Nacional. Nem mesmo todos esses artifícios foram suficientes para resolver as dificuldades econômico-financeiras dessas usinas.

O potencial hidráulico inexplorado no País se concentra justamente na Região Norte. Nos últimos nove anos, porém, nenhuma usina de grande porte foi licitada, enquanto projetos cujos reservatórios afetariam diretamente terras indígenas tiveram o licenciamento ambiental arquivado. Dar andamento a esses estudos em um momento em que a política ambiental e indigenista do País é questionada no exterior pode ser um entrave. Por outro lado, um parecer que contemple compensações às comunidades afetadas pode ser encarado como uma sinalização de que o País levará a sério os compromissos de descarbonização. Por fim, não se pode ignorar o efeito das mudanças climáticas na região, que pode trazer impactos profundos no regime de chuvas e nos rios – e, consequentemente, na vazão das hidrelétricas, aumentando os gastos necessários e reduzindo o retorno do investimento. Todos esses fatores precisam ser estimados com precisão para que a sociedade possa fazer uma escolha consciente entre as diversas fontes de energia. Construir usinas na Região Amazônica é possível e pode ser de interesse da coletividade, mas levantar esses custos de forma artificial é seguir o caminho do fracasso que o País já conhece bem.


Guardiões da floresta: a luta de um povo pela Amazônia

 Philipp Lichterbeck

Deutsche Welle

Sentindo-se abandonados pelo governo Bolsonaro e munidos de facões e espingardas, indígenas do povo Krikati, do Maranhão, defendem reserva contra madeireiros e criadores de gado. "Fazemos isso por nossos filhos e netos." 

Quando os quatro homens chegam à cabana à noite, cortam a cerca com golpes de facão. Depois, à luz das lanternas dos celulares, olham à volta da estrutura, feita de madeira e com um telhado de folhas de palmeira. Numa prateleira, encontram óleo para máquina.

"Os madeireiros usam-no para olear suas motosserras", diz Paatep Krikati, o líder da pequena tropa. "Devem ter estado aqui durante vários dias. E eles vão voltar."

Paatep tinha encontrado o abrigo no fim de um caminho pouco visível na selva. "Os madeireiros queriam escondê-lo bem", diz ele. "Mas nós, povos indígenas, podemos ler a floresta."

Paatep, um pequeno homem de 35 anos, joga gasolina na cabana. Espalha-a sobre a madeira e as folhas de palmeira e pega um isqueiro. "Todos para fora!"

As chamas já atingem metros de altura quando, de repente, tiros ecoam pela noite. Os homens instintivamente sacam suas espingardas, apontando-as para a mata. Mas o estrondo veio de cartuchos explosivos que os madeireiros tinham escondido entre as folhas das palmeiras.

O fogo na cabana ocorreu no final de outubro, na reserva do povo indígena Krikati no Maranhão. É um pequeno episódio de um conflito muito maior em curso na bacia do Amazonas: madeireiros, criadores de gado, agricultores, exploradores de ouro e caçadores estão invadindo os territórios dos povos indígenas do Brasil com cada vez maior frequência. Cortam árvores, queimam vegetação, colocam o gado para pastar, contaminam rios, matam animais – e se necessário, até pessoas. Eles  violam a lei que protege estritamente as reservas, mas que não parece mais valer para os povos originários brasileiros.

Abandonados pelo Estado, os krikati, um povo de cerca de 1.300 pessoas, não queriam mais assistir passivamente à destruição. Decidiram defender a sua terra: a sua floresta, os seus rios, as suas aldeias e, por último, o seu modo de vida. Fundaram uma guarda florestal batizada de Guardiões da Floresta, ou, na sua língua, Pji Jamyr Catiji.

Facões, espingardas e cinco sentidos

Um total de 14 homens e uma mulher pertencem à força de voluntários que patrulha a reserva. Usam botas e uniformes verde-oliva provenientes de doações, com  imagem de um jaguar a rugir impressa nas costas. Eles estão armados com facões e espingardas – e os seus cinco sentidos.

Ao procurar o esconderijo dos madeireiros, os krikati reparam em cada galho partido. Seguem pequenos rastros de sangue que os levam aos restos de um macaco estripado por um caçador ilegal (que oferece a carne no dia seguinte na cidade vizinha de Amarante do Maranhão por Whatsapp, a R$ 5 o quilo). Mais tarde, nessa mesma noite, os indígenas ouvem o eco quase perceptível de um tiro distante, disparado por outro caçador na reserva.

"O nosso trabalho é perigoso", diz Wilson Krikati, de 53 anos, o membro mais velho da expedição. Já houve troca de tiros, diz ele, mas ninguém foi ferido. "Fazemos isso pelos nossos filhos e netos. Sem a nossa terra, eles não terão uma boa vida."

Indispensáveis para proteger a florestar

No entanto, os krikati defendem muito mais do que apenas a sua reserva. Defendem o resto do mundo também, que enfrenta a quase impossível tarefa de frear a mudança climática. Para isso, seria crucial uma floresta intacta na bacia amazônica, que absorve enormes quantidades de carbono e também funciona como uma gigantesca máquina de circulação de água. Abastece com chuva regiões do Brasil que de outra forma se tornariam savanas. Em algumas áreas do país, esse processo já começou.

E os indígenas são indispensável para a preservação da floresta. Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), ninguém a protege melhor. Em nenhum lugar a natureza está mais intacta do que nos territórios indígenas, afirma a FAO enfaticamente.

A reserva Krikati é um dos quase 500 territórios indígenas reconhecidos no Brasil que gozam da proteção da Constituição de 1988. No entanto, as terras indígenas estão sendo atacadas de forma cada vez mais brutal. Há relatos diários de madeireiros, garimpeiros e criadores de gado invadindo-as.

Pela reserva do povo Yanomami no norte do Brasil, por exemplo, já se espalharam 20 mil garimpeiros. Eles atacam aldeias indígenas com armas de fogo. E na reserva dos Piripkura, que ainda vivem isolados do mundo exterior, 3.400 hectares de floresta foram queimados em agosto deste ano. Os poucos piripkura que restam estão ameaçados de extinção, de acordo com a ONG Instituto Socioambiental (ISA).

As reservas do grande rio Xingu na bacia do sudeste do Amazonas são particularmente atingidas. Elas formam uma espécie de barreira contra o avanço do agronegócio para o norte. Mas quanto tempo ela ainda vai durar? Somente neste ano, a destruição da floresta no Xingu aumentou 50% em comparação com o ano passado.

"Sob Bolsonaro, invasores sentem-se intocáveis"

Não seria exagerado afirmar que o futuro da Amazônia é decidido nas reservas indígenas do Brasil – e os krikati lutam na linha da frente.

Depois de completarem a sua missão, Paatep e os outros três voltam para as suas motos, que estacionaram à beira da floresta para não fazerem qualquer barulho. À direita e à esquerda, a luz da lua ilumina a faixa de devastação deixada pelos madeireiros. O solo úmido é cortado por rastros de pneus, há algumas árvores caídas, tal como latas de gasolina vazias com as quais motosserras foram reabastecidas.

"Sinto-me triste", diz Paatep Krikati. "Eu teria gostado de ter apanhado aqueles tipos. Queria interrogá-los. Quem lhes paga, quem financia as suas máquinas, para que serraria vão os troncos? Mas provavelmente não teriam dito nada. São caras teimosos, são pobres e temem os empresários que estão atrás dessas operações."

Na volta, os krikati atravessam um pequeno rio que marca a fronteira da reserva. Uma placa pendurada num poste diz: "Governo Federal / Terra Protegida / Acesso Interditado a Pessoas Estranhas". É o último desses sinais que resta na reserva, todos os outros foram quebrados, derrubados ou alvejados por tiros.

Logo após a saída da floresta, os krikati passam pela propriedade de um pequeno fazendeiro. Quando haviam entrado na floresta horas antes, o fazendeiro gritara: "Pegando malandros, hein?" De fato, ele deve ter percebido tudo nos dias anteriores: o barulho das motosserras e como um caminhão entrou vazio na reserva e saiu carregado com toras. Os povos indígenas suspeitam que o agricultor foi pago para ficar calado.

"Sob Bolsonaro, os invasores tornaram-se mais ousados", diz Paatep. "Eles sentem-se intocáveis."

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro gabou-se de não ter demarcado uma única reserva indígena, um único quilombo ou uma única reserva natural desde que tomou posse, em 2019. Ele cortou financiamento, poderes e pessoal da Funai, do Ibama e do ICMBio. E encheu os órgãos de militares com pouca qualificação. Como resultado, o desmatamento no Brasil está atingindo novos níveis recordes.

Questionada pela DW Brasil sobre a situação na reserva Krikati, a Funai escreveu: "A Funai informa que, nos últimos dois anos, investiu cerca de R$ 3,5 milhões em ações de fiscalização e monitoramento de Terras Indígenas no estado do Maranhão. As atividades são fundamentais para combater ilícitos em áreas indígenas, como grilagem e extração de madeira [...]. A Funai apoia ainda diversas operações conjuntas de fiscalização e proteção territorial realizadas em parceria com órgãos ambientais de segurança pública competentes, entre eles, Polícia Federal, Força Nacional, Ibama e Forças Armadas." Resta saber por que então os krikati se sentem sozinhos na defesa de sua reserva.

"Estamos sozinhos nessa luta, mas não temos medo"

A viagem dos guardiões krikati para casa leva-os por estradas de terra ao longo de cercas aparentemente intermináveis. Atrás deles, há pastagens repletas de gado. O contraste com a floresta densa não poderia ser maior. A reserva está praticamente rodeada de gado, formando a última mancha de natureza intacta em meio ao avanço da fronteira agrícola.

Duas horas mais tarde, exaustos, os guardas florestais chegam à sua aldeia, São José, uma das três dos krikati. A longa viagem ilustra o maior problema da guarda florestal. A reserva é grande demais para ser vigiada por 15 pessoas. Apenas caminhos estreitos e algumas estradas de terra atravessam a reserva montanhosa, cortada por formações rochosas.

Assim, quando os guardiões ouvem que algo está acontecendo, muitas vezes demoram horas para chegar ao local. Eles têm uma pick-up e são condutores extremamente hábeis de motos, mas muitas vezes chegam tarde demais. "Os outros estão sempre um passo à nossa frente", diz Paatep.

Alguns dias mais tarde, Paatep Krikati envia uma mensagem pelo Whatsapp: "Estamos sozinhos nessa luta, mas não temos medo, porque ter medo é como morrer. Se tivéssemos medo, quem iria proteger o nosso país?" E envia uma foto mostrando uma estrada iluminada por faróis. "Estamos de novo na estrada."